23 Janeiro 2000

 
continuação

a palavra lésbica

temos, claro, sapatona, também abreviada para sapa, usadíssimas, mas que
dificilmente se poderiam chamar de elegantes. no aspecto clareza também deixam a desejar. sapatonas somos todas ou só as franchas? as que gostam de
salto alto e batom são o quê? para mim, sapa lembra ainda o feíssimo
batráquio.

e homossexual? termo híbrido do grego e do latim, foi inventado pelo
alemão karoly maria kertnerby em carta a seu amigo karl heirich ulrich, o
pioneiro defensor dos "uranianos", em 1868. de início simpática aos homens
que amavam homens, esta palavra foi apropriada pelos estudiosos da
sexualidade humana do final do século 19 para denominar um estado doentio a
ser corrigido pela psicologia.

apesar de hoje ser empregada pela comunidade científica de maneira em teoria isenta de preconceitos, na prática ainda carrega um ranço de "desvio" e "perversão" que precisamos combater sem trégua. tem ainda a desvantagem de referir-se tanto a homens quanto a mulheres, o que faz com que nós desapareçamos da maioria das falas em que é utilizada.

você já reparou quantas vezes as pessoas dizem homossexuais pensando
apenas em homens? e a quantidade de pesquisas sobre homossexualidade em que
são estudados apenas homens?

foi por isto que as mulheres dos movimentos homossexuais do mundo inteiro passaram a insistir no uso da palavra lésbica para distinguir-nos dos homens e tornar-nos mais visíveis.

e gay, que vem de alegre em inglês? usada quase que só para homens mundo
afora, exigindo que se explique mulher gay para uma de nós, tem a
desvantagem de propiciar uma profusão de cacófanos em português, como
estética gay e política gay.

seu passado é também pouco glorioso, tendo surgido no século 18 para descrever as mulheres de vida fácil da Inglaterra, e estendido-se aos cavalheiros alegres e efeminados que, na
era vitoriana, freqüentavam os portos à cata de marinheiros retornando de
longas viagens. o fato de ser hoje um termo positivo e de uso comum
demonstra a força do ativismo homossexual, que conseguiu apagar sua
conotação original e conferir-lhe dignidade.

existem outras palavras associadas ao amor entre iguais, mas usá-las seria
um convite à incompreensão. quem conhece uraniana, criada a partir do mito
de afrodite urânia, deusa dos amores celestes não comandados pela
procriação?

e sáfica, da grande poeta Safo? temos ainda lesbiana,
variação mais sonora de lésbica muito usada em espanhol. e a infinidade de
termos pejorativos, como sodomita, mulher-macho, racha, que não só nos
descrevem mal como têm uma forte carga negativa.

mas, qual o problema com lésbica? parece que causa arrepios devido a uma
outra expressão feia: a homofobia internalizada.

homofobia quer dizer horror a tudo o que é homossexual. religiosos radicais e skin heads são
grandes praticantes desta forma de intolerância, mas nós também costumamos
senti-la, de forma mais sutil, contra nós próprias, daí o “internalizada”.

trata-se, aliás, de uma conseqüência natural da educação que recebemos, em
que a conformidade é muito mais valorizada do que a expressão dos sentimentos verdadeiros. somos criadas ouvindo horrores sobre viados e sapatonas, e levadas a crer que lésbica é um palavrão que não se diz em sociedade.

claro que ficamos então tímidas em nos descrevermos assim; sentindo, mais do que pensando,
a rejeição implícita de nossa família.

mas vamos utilizar agora a cabeça que a grande deusa nos deu e tentar abandonar o que não serve mais dos preconceitos de nosso passado.

a palavra lésbica deriva do nome da ilha de Lesbos, onde a poeta Safo teve sua escola, a única de que se tem registro na antigüidade voltada para a
educação de moças.

Safo foi elogiada por Platão como a décima Musa, sendo
tida como a inventora da poesia romântica. descreveu com lirismo sua atração
sensual por mulheres e conquistou respeito e admiração na sociedade
extremamente machista da Grécia do século 5 a.c.

lésbica é, portanto, o termo referente à homossexualidade de origem mais
antiga ainda em uso, sendo clássico, sem subterfúgios e preciso.

descreve apenas mulheres, não foi apropriado pela psicologia, e evoca a imagem de uma
bela ilha grega onde uma mulher corajosa ensinou e dedicou poesias a outras
mulheres.

digo-me lésbica com orgulho. e você?

laura bacellar


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