31 Agosto 2005
Poesia de Juliana Rocha
esta não foi ao sarau, mas vamos dar uma "canja" pra ela mesmo assim:
Surpresas
Ao chegar encontramos surpresas
Surpresas, às vezes, até esperadas
Algumas que vêm pra marcar
Outras que são pra desconcertar
O certo é que vêm
E na maioria, são pro bem
Sua surpresa de hoje
Pode ainda não ter chegado
Mas não deixe que isso fique apagado
Perceba-a em pequenos movimentos
Mantenha-se atento
Pois é certo de que virá
Todos dias elas vêm no saudar
Mantenha olhos e coração abertos
E o corpo sempre desperto
Aproveite sua supresa de hoje
Pode até ser de repente
Mas ela é sempre seu presente.
Surpresas
Ao chegar encontramos surpresas
Surpresas, às vezes, até esperadas
Algumas que vêm pra marcar
Outras que são pra desconcertar
O certo é que vêm
E na maioria, são pro bem
Sua surpresa de hoje
Pode ainda não ter chegado
Mas não deixe que isso fique apagado
Perceba-a em pequenos movimentos
Mantenha-se atento
Pois é certo de que virá
Todos dias elas vêm no saudar
Mantenha olhos e coração abertos
E o corpo sempre desperto
Aproveite sua supresa de hoje
Pode até ser de repente
Mas ela é sempre seu presente.
Poemas de Débora Tavares
NANQUIM
não sei de mim
sei é que tenho uma alegria nos olhos
que a tristeza por vezes faz eclipse
e que minha vontade é mergulhar no que me aconchega
na palavra, na caneta
lambuzar-me na tinta preta
até me reescrever, inteira
ANZOL
meu pai não teve filho
meu pai aos 4 anos não teve mais pai
meu filho de 4 anos senta a seu lado
eles pescam a companhia que faltava
não sei de mim
sei é que tenho uma alegria nos olhos
que a tristeza por vezes faz eclipse
e que minha vontade é mergulhar no que me aconchega
na palavra, na caneta
lambuzar-me na tinta preta
até me reescrever, inteira
ANZOL
meu pai não teve filho
meu pai aos 4 anos não teve mais pai
meu filho de 4 anos senta a seu lado
eles pescam a companhia que faltava
Sarau do Rato foi tudo de bom!

O sarau da Rato de Livraria foi maravilhoso, e isso só foi possível graças à presença “mágica” de nossos convidados. Há muitos artistas dentre nós... e foi um prazer descobrir isso.
Gostaríamos de agradecer a participação de todos, um a um, e ainda dizer àqueles que perderam a oportunidade que haverá novos saraus muito em breve.
Acompanhem os textos lidos no sarau, que serão postados neste blog durante esta semana!
22 Agosto 2005
Nova geração da literatura brasileira
Amigos da Rato de Livraria,
gostaríamos de "gritar" a todos nossa indignação com as críticas realizadas à nova geração da literatura brasileira.
Sem nos estendermos muito, resolvemos postar a carta que nosso amigo escritor, Moacyr Godoy Moreira, enviou à revista Veja.
Leiam com atenção e manifestem opiniões.
Paula.
gostaríamos de "gritar" a todos nossa indignação com as críticas realizadas à nova geração da literatura brasileira.
Sem nos estendermos muito, resolvemos postar a carta que nosso amigo escritor, Moacyr Godoy Moreira, enviou à revista Veja.
Leiam com atenção e manifestem opiniões.
Paula.
Carta à Veja
À seção de Cartas/VEJA
a/c Diretor de Redação
A literatura brasileira hoje: um contraponto
Na edição desta semana, a revista VEJA apresenta um breve panorama da literatura portuguesa (Uma outra linguagem) desde meados do século XX até hoje, exaltando o extraordinário talento dos novos autores, fazendo uma contextualização desta nova produção com a entrada de Portugal na Comunidade Européia e lamentando que muitos dos títulos ainda não tenham sido apresentados ao mercado brasileiro.
Curiosamente, a matéria que se sucede, Anos perdidos, assinada pelo mesmo articulista, aponta fragilidades no novo romance de Milton Hatoum, Cinzas do Norte, um dos mais importantes autores das nossas letras contemporâneas, respeitado por críticos e estudiosos dos mais renomados, premiado por diversos órgãos e instituições e traduzido na Europa e nos Estados Unidos.
No texto sobre os portugueses, insinua-se que, no período abordado, nada se tem feito de muito relevante na literatura brasileira e considerando este equívoco, ou esta simples ignorância – no sentido estrito do termo, da falta absolta de conhecimento de causa – gostaria de brevemente elencar alguns fatos que se contrapõem à postura deste mal-informado (preparado?) articulista.
Muito se tem discutido sobre juízos de valor para o que se fez nas letras brasileiras nas últimas décadas. Retrocedendo um pouco, nos anos de 1950-60, tivemos a publicação de algumas das mais importantes obras do século findo, como Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa (1956) e Laços de família, de Clarice Lispector (1960) e trabalhos de Cecília Meireles, Vinícius de Moares e João Cabral de Melo Neto, para citar apenas três poetas.
No período das décadas de 1970-80, autores foram impedidos de publicar seus textos, por atitudes diretas do regime ditatorial, como os célebres casos dos livro Em câmara lenta, de Renato Tapajós e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Surgiram nomes como João Gilberto Noll, Adélia Prado, Caio Fernando Abreu, Ana Cristina César, Sérgio Sant’Anna, Luiz Vilela e reafirmaram-se outros, como Ivan Ângelo, Lygia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão, Marina Colassanti e Affonso Romano de Sant’Anna.
Estudos hoje, não apenas no Brasil, tentam compreender a postura de resistência ao autoritarismo na obra destes escritores, estudos que se aprofundam nas nossas principais universidades e por aí em institutos de Letras no Canadá, Estados Unidos, França, Espanha, Itália. Na América Latina, estudos do México, Argentina e Chile, principalmente, aproximam as experiências do continente para compreender melhor o flagelo da tortura e da extradição, além do desaparecimento sumário de militantes políticos e artistas.
Na década de 1990 e nos primeiros anos do século XXI, muitos autores brasileiros têm-se destacado, criando inclusive um interesse renovado dos grandes grupos editoriais por nomes nacionais. Para rapidamente citar algumas destas empreitadas, percebe-se o número crescente de escritores melhor assessorados e divulgados pelas editoras: Companhia das Letras (Amilcar Bettega Barbosa, Antonio Carlos Viana, Arnaldo Bloch, Bernardo Carvalho, Dionisio Jacob, Fabrício Carpinejar, Michel Laub, Patricia Melo, Rubens Figueiredo, Vilma Arêas); Cosac & Naif (Luiz Vilela, Marçal Aquino, Paulo Rodrigues, Rodrigo Lacerda); Objetiva (Ana Ferreira, Antônio Prata, Ferréz, Fernando Bonassi, Martha Medeiros, Sérgio Rodrigues); Planeta (Adriana Falcão, Cláudia Tajes, João Anzanello Carrascoza, João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron, Santiago Nazarian); Record (Carlos Herculano Lopes, Cíntia Moscovich, Edgar Telles Ribeiro, Heloísa Seixas, Letícia Wierzchowski, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Marilene Felinto, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira); Rocco (Adriana Lisboa, Bernardo Ajzemberg, Cristóvão Tezza, Paulo Roberto Pires). Na verdade, muitos destes autores abarcados pelas grandes casas editoriais foram revelados pelo trabalho notável e heróico de editoras como Sete Letras (RJ), Ateliê, Escrituras e Boitempo (SP) e L&PM (RS) que se responsabilizaram por apresentar ao mercado as obras de estréia dos autores.
Como os escritores dos períodos anteriores, os ‘novos’ têm sido traduzidos e estudados no exterior. Jaqueline Penjon, chefe do setor de literatura brasileira da Universidade Paris IV (Sorbonne) tem trabalhado com as obras de Milton Hatoum. A Universidade do Texas (onde precocemente, em 1963, Clarice Lispector proferiu uma conferência denominada A literatura brasileira e as vanguardas) assim como o departamento de Letras da Universidade do Porto, em Portugal, têm se ocupado de autores surgidos a partir da década de 1990 no Brasil. Em termos de difusão de suas obras, Adriana Lisboa esteve recentemente na Espanha, Luiz Ruffato na França, Joca Terron em Portugal, Marçal Aquino no México. Entre os indicados ao prêmio Jabuti 2005, o mais prestigiado prêmio do país, estão o romance Vista do Rio, de Rodrigo Lacerda e os livro de contos de Cíntia Moscovich (Arquitetura do arco-íris) e de Edgar Teles Ribeiro (Amores mirabolantes, personagens clandestinos).
A relevância do trabalho literário no Brasil nos últimos anos salta aos olhos tanto no mercado nacional quanto no estrangeiro, interessando ao público e à academia (ver No país do Presente – ficção brasileira no início do século XXI, de Flávio Carneiro, professor de literatura da UERJ, publicado em 2005 pela editora Rocco). A imensa parcela da população brasileira que lê, como assinante ou como comprador esporádico, a revista VEJA, merece uma posição mais honesta, profissional e esclarecedora de obras e autores deste grupo, de forma a tomar conhecimento do trabalho literário sério que além de tudo tem levado o nome do Brasil além das fronteiras nacionais. A desinformação ou má-fé de um sujeito que insiste em diminuir ou ocultar a força destes trabalhos, registra-se como um desserviço à nossa literatura, elemento primordial de manifestação de um talento raro que nos marca desde os tempos de Castro Alves e Machado de Assis. Sugiro um dossiê sobre o assunto, como tem publicado eventualmente a revista suplementos sobre Saúde e Ciência. Assunto, autores e obras a serem citadas não iriam faltar. Como estamos em tempos de CPI e de trazer à tona verdades há muito ocultadas, por interesses escusos e mesquinhos, seria um momento de mostrar à sociedade brasileira que não somos a província iletrada que muitos insistem em vender como imagem definitiva.
Muito grato,
Moacyr Godoy Moreira
Autor dos livros Lâmina do Tempo (contos) e República das Bicicletas (crônicas), mestrando em Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – SP. Autor de resenhas e estudos sobre literatura para jornais como Jornal do Estado (Curitiba-PR) e Zero Hora (Porto Alegre-RS) além de sítios especializados na internet.
Moacyr Godoy Moreira
RG 21462223X CPF 17478128890
Rua Jacirendi, 366 São Paulo – SP
CEP 03080-000
Tel. 11 69412171/ 82676319
moamoreira@ig.com.br
moreiramoa@hotmail.com
a/c Diretor de Redação
A literatura brasileira hoje: um contraponto
Na edição desta semana, a revista VEJA apresenta um breve panorama da literatura portuguesa (Uma outra linguagem) desde meados do século XX até hoje, exaltando o extraordinário talento dos novos autores, fazendo uma contextualização desta nova produção com a entrada de Portugal na Comunidade Européia e lamentando que muitos dos títulos ainda não tenham sido apresentados ao mercado brasileiro.
Curiosamente, a matéria que se sucede, Anos perdidos, assinada pelo mesmo articulista, aponta fragilidades no novo romance de Milton Hatoum, Cinzas do Norte, um dos mais importantes autores das nossas letras contemporâneas, respeitado por críticos e estudiosos dos mais renomados, premiado por diversos órgãos e instituições e traduzido na Europa e nos Estados Unidos.
No texto sobre os portugueses, insinua-se que, no período abordado, nada se tem feito de muito relevante na literatura brasileira e considerando este equívoco, ou esta simples ignorância – no sentido estrito do termo, da falta absolta de conhecimento de causa – gostaria de brevemente elencar alguns fatos que se contrapõem à postura deste mal-informado (preparado?) articulista.
Muito se tem discutido sobre juízos de valor para o que se fez nas letras brasileiras nas últimas décadas. Retrocedendo um pouco, nos anos de 1950-60, tivemos a publicação de algumas das mais importantes obras do século findo, como Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa (1956) e Laços de família, de Clarice Lispector (1960) e trabalhos de Cecília Meireles, Vinícius de Moares e João Cabral de Melo Neto, para citar apenas três poetas.
No período das décadas de 1970-80, autores foram impedidos de publicar seus textos, por atitudes diretas do regime ditatorial, como os célebres casos dos livro Em câmara lenta, de Renato Tapajós e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Surgiram nomes como João Gilberto Noll, Adélia Prado, Caio Fernando Abreu, Ana Cristina César, Sérgio Sant’Anna, Luiz Vilela e reafirmaram-se outros, como Ivan Ângelo, Lygia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão, Marina Colassanti e Affonso Romano de Sant’Anna.
Estudos hoje, não apenas no Brasil, tentam compreender a postura de resistência ao autoritarismo na obra destes escritores, estudos que se aprofundam nas nossas principais universidades e por aí em institutos de Letras no Canadá, Estados Unidos, França, Espanha, Itália. Na América Latina, estudos do México, Argentina e Chile, principalmente, aproximam as experiências do continente para compreender melhor o flagelo da tortura e da extradição, além do desaparecimento sumário de militantes políticos e artistas.
Na década de 1990 e nos primeiros anos do século XXI, muitos autores brasileiros têm-se destacado, criando inclusive um interesse renovado dos grandes grupos editoriais por nomes nacionais. Para rapidamente citar algumas destas empreitadas, percebe-se o número crescente de escritores melhor assessorados e divulgados pelas editoras: Companhia das Letras (Amilcar Bettega Barbosa, Antonio Carlos Viana, Arnaldo Bloch, Bernardo Carvalho, Dionisio Jacob, Fabrício Carpinejar, Michel Laub, Patricia Melo, Rubens Figueiredo, Vilma Arêas); Cosac & Naif (Luiz Vilela, Marçal Aquino, Paulo Rodrigues, Rodrigo Lacerda); Objetiva (Ana Ferreira, Antônio Prata, Ferréz, Fernando Bonassi, Martha Medeiros, Sérgio Rodrigues); Planeta (Adriana Falcão, Cláudia Tajes, João Anzanello Carrascoza, João Paulo Cuenca, Joca Reiners Terron, Santiago Nazarian); Record (Carlos Herculano Lopes, Cíntia Moscovich, Edgar Telles Ribeiro, Heloísa Seixas, Letícia Wierzchowski, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Marilene Felinto, Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira); Rocco (Adriana Lisboa, Bernardo Ajzemberg, Cristóvão Tezza, Paulo Roberto Pires). Na verdade, muitos destes autores abarcados pelas grandes casas editoriais foram revelados pelo trabalho notável e heróico de editoras como Sete Letras (RJ), Ateliê, Escrituras e Boitempo (SP) e L&PM (RS) que se responsabilizaram por apresentar ao mercado as obras de estréia dos autores.
Como os escritores dos períodos anteriores, os ‘novos’ têm sido traduzidos e estudados no exterior. Jaqueline Penjon, chefe do setor de literatura brasileira da Universidade Paris IV (Sorbonne) tem trabalhado com as obras de Milton Hatoum. A Universidade do Texas (onde precocemente, em 1963, Clarice Lispector proferiu uma conferência denominada A literatura brasileira e as vanguardas) assim como o departamento de Letras da Universidade do Porto, em Portugal, têm se ocupado de autores surgidos a partir da década de 1990 no Brasil. Em termos de difusão de suas obras, Adriana Lisboa esteve recentemente na Espanha, Luiz Ruffato na França, Joca Terron em Portugal, Marçal Aquino no México. Entre os indicados ao prêmio Jabuti 2005, o mais prestigiado prêmio do país, estão o romance Vista do Rio, de Rodrigo Lacerda e os livro de contos de Cíntia Moscovich (Arquitetura do arco-íris) e de Edgar Teles Ribeiro (Amores mirabolantes, personagens clandestinos).
A relevância do trabalho literário no Brasil nos últimos anos salta aos olhos tanto no mercado nacional quanto no estrangeiro, interessando ao público e à academia (ver No país do Presente – ficção brasileira no início do século XXI, de Flávio Carneiro, professor de literatura da UERJ, publicado em 2005 pela editora Rocco). A imensa parcela da população brasileira que lê, como assinante ou como comprador esporádico, a revista VEJA, merece uma posição mais honesta, profissional e esclarecedora de obras e autores deste grupo, de forma a tomar conhecimento do trabalho literário sério que além de tudo tem levado o nome do Brasil além das fronteiras nacionais. A desinformação ou má-fé de um sujeito que insiste em diminuir ou ocultar a força destes trabalhos, registra-se como um desserviço à nossa literatura, elemento primordial de manifestação de um talento raro que nos marca desde os tempos de Castro Alves e Machado de Assis. Sugiro um dossiê sobre o assunto, como tem publicado eventualmente a revista suplementos sobre Saúde e Ciência. Assunto, autores e obras a serem citadas não iriam faltar. Como estamos em tempos de CPI e de trazer à tona verdades há muito ocultadas, por interesses escusos e mesquinhos, seria um momento de mostrar à sociedade brasileira que não somos a província iletrada que muitos insistem em vender como imagem definitiva.
Muito grato,
Moacyr Godoy Moreira
Autor dos livros Lâmina do Tempo (contos) e República das Bicicletas (crônicas), mestrando em Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – SP. Autor de resenhas e estudos sobre literatura para jornais como Jornal do Estado (Curitiba-PR) e Zero Hora (Porto Alegre-RS) além de sítios especializados na internet.
Moacyr Godoy Moreira
RG 21462223X CPF 17478128890
Rua Jacirendi, 366 São Paulo – SP
CEP 03080-000
Tel. 11 69412171/ 82676319
moamoreira@ig.com.br
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10 Agosto 2005
Resenha - Mandrake a Bíblia e a bengala
O mais novo lançamento de Rubem Fonseca
Dois casos misteriosos obrigam o advogado criminal Mandrake a pôr à prova seu talento detetivesco. Depois de quase perder a vida investigando o furto de uma valiosa Bíblia impressa por Gutenberg, precisará solucionar o assassinato de um ex-cliente. O problema é que ele próprio é um dos principais suspeitos.
200 pgs.
R$ 32,00
podemos dar 10% de desconto pagto. à vista.
ratodelivraria@uol.com.br
F: 3266-4476
Dois casos misteriosos obrigam o advogado criminal Mandrake a pôr à prova seu talento detetivesco. Depois de quase perder a vida investigando o furto de uma valiosa Bíblia impressa por Gutenberg, precisará solucionar o assassinato de um ex-cliente. O problema é que ele próprio é um dos principais suspeitos.
200 pgs.
R$ 32,00
podemos dar 10% de desconto pagto. à vista.
ratodelivraria@uol.com.br
F: 3266-4476
O doente
O dia lá fora está cinzento, mas dentro de casa está pior. Algumas nuanças do preto-e-branco pintam os móveis da sua casa; você está andando por entre estantes, cadeiras, abajures, um pouco tonto, é verdade. Seus olhos parecem embaçados. Tudo o que vê é o que consegue sentir. Em meio a apalpadelas vai passando pela sala; uma mesa de madeira você reconhece. Parece a da sala de jantar, aquela de imbuia que você encomendou na feira de artes, um ano atrás. Havia uma cesta com bananas em cima? Você não sabe, acabou de passar por ela, mas já se esqueceu.
Agora você está naquele corredorzinho que desemboca mesmo onde? Ah, desemboca no banheiro. A porta está semicerrada. Por que o medo de abri-la? Medo, não. Pânico. Com a palma da mão esquerda você empurra a porta lentamente. Ela ainda não está aberta. Há uma fumaça muito tênue lá dentro. Alguém no banho. Você não sabe. Isso aumenta o seu pânico. Suas pernas tremem. Você quase cai, mas apóia-se nos batentes. Sua vontade é de fugir. Não quer de jeito nenhum ver o que há lá dentro. Mas uma força o empurra para entrar. Quando você percebe, já está lá. Sim, tem alguém no compartimento do chuveiro, mas a cortina é bastante fosca, não dá para identificar quem é. O curioso é que parece estar sentado e de roupa, pois no meio de tantas nuanças cinzentas é possível distinguir o preto de um terno. Será? Talvez um terno?
Você avança mais um passo, sempre primeiro com a perna esquerda. E a mão canhota na frente, abrindo caminho. Ninguém fala nada, seu pânico aumenta. Sua voz está engasgada. O suor frio escorre pela sua testa. O chuveiro está ligado. O último obstáculo é a cortina. Você abre.
Quem está lá?
A fumaça cobre a nitidez dos traços, mas você consegue enxergar um homem sentado, vestindo um terno negro com camisa branca. Ele está numa cadeira de rodas. Está muito doente. Ele levanta o braço como se estivesse pedindo ajuda. Você não sabe o que fazer. Um doente, dentro do seu banheiro, com o chuveiro ligado... Como ele teria parado ali? Não seria você que está no lugar errado? Não. Esta casa é a sua. Você tem certeza. Reconhece cada palmo desse lugar. Você não ajuda o homem. Afasta-se simplesmente.
Horas depois, você volta a passear pela casa. Agora sem medo. Tudo continua preto-e-branco, mas as imagens estão mais bem definidas. Não há mais tontura. Devia ser um mal-estar passageiro. Aquele homem no banheiro, ficção dos seus olhos. Mas a sensação continua a mesma. Talvez você tenha passado um bom tempo dormindo e não se dado conta. E agora precisa seguir para o quarto. Mas antes é necessário ir até a varanda. É imprescindível. Mas por que mesmo? Você não sabe. Vai saber quando chegar lá.
Tudo excessivamente branco na área de serviço; a bicicleta continua encostada à parede. Faz mais de três anos que está parada. Qualquer dia você anuncia em um desses classificados e vende. Sempre existe alguém querendo comprar uma bicicleta. Bicicleta não. Mountain bike, como dizia aquela sua namorada que foi embora faz tempo, a Nádia. Bobagem. Não era nada disso que você queria, nem ir até a área de serviço, nem pensar na bicicleta, muito menos lembrar da Nádia. Você tinha que ir até a varanda, mas não encontrou o caminho e agora está no corredor sombrio, onde você teve calafrios há poucas horas. Será que o homem ainda está no banheiro?
Você abre a porta sem medo e confere. Tudo está em seu lugar. Nem sinal de gente. Nem fumaça. Tudo limpo. O chão está seco. Você pode ter sonhado, só isso. Mas o esquisito é que aquela horrível sensação continua. Parece haver alguém em casa além de você. Aquele homem, quem seria? Tinha um rosto familiar. De repente, a porta do quarto parece lhe dizer alguma coisa.
Seus passos agora estão mais ágeis. O cinza ganhou tons de marrom. Marrom bem escuro. E a porta do seu quarto está fechada. Mas você nunca fecha... Medo de abri-la? Por quê? É o seu quarto. Apenas o seu quarto. Seu braço está pesado, mas você consegue abrir a porta. Olha para trás e vê uma luz branca muito forte vinda da cozinha. O corredor continua bem escuro. O quarto, um breu. Você entra mesmo sem coragem. E o homem está lá. De terno preto.
Ele levanta da cadeira de rodas como se estivesse em uma cadeira comum; estica o braço para cumprimentá-lo. Você recua. Você o conhece? Não. Agora ele lhe parece um pouco menos doente, mas continua pálido. Seus olhos estão menos embaçados. Você aproveita o momento e puxa pela memória pra ver se é alguém que você conhece. Faz um esforço tremendo. Mas não lembra. Ele permaneceu imóvel, com o braço esticado. Será que vai atacá-lo? Será que está sozinho? Você sim está sozinho. Lembra-se de que cortaram o telefone dias atrás? Lembra-se de que todos os seus vizinhos se mudaram com medo da peste? Mas por que este homem está tão doente? Será que ele pegou a peste?
Finalmente ele resolve falar com você, mas você não quer escutá-lo. Tem medo. Mais uma vez. Ele vem na sua direção e você dispara a correr. Corre não se sabe quantos quilômetros, e cada vez que olha pra trás ele está lá, com o braço esticado. De repente ele alcança seu ombro e puxa você.
Desesperado, você acorda.
O despertador marca 7h15. Já é a terceira vez que ele toca.
Você passa a mão na testa para enxugar o suor. Ainda bem que a sensação esquisita desapareceu.
Sem medo nenhum você vai ao banheiro pra lavar o rosto. Hoje é segunda-feira e quem chegar atrasado à reunião será despedido, seu chefe falou isso umas seiscentas vezes pelo menos. Você abre a torneira, joga bastante água nos olhos, na boca e usa a toalha para enxugar. Olha-se no espelho e vê o doente do chuveiro. Só lhe faltam o terno preto e a camisa branca.
Por Paula Fábrio
Agora você está naquele corredorzinho que desemboca mesmo onde? Ah, desemboca no banheiro. A porta está semicerrada. Por que o medo de abri-la? Medo, não. Pânico. Com a palma da mão esquerda você empurra a porta lentamente. Ela ainda não está aberta. Há uma fumaça muito tênue lá dentro. Alguém no banho. Você não sabe. Isso aumenta o seu pânico. Suas pernas tremem. Você quase cai, mas apóia-se nos batentes. Sua vontade é de fugir. Não quer de jeito nenhum ver o que há lá dentro. Mas uma força o empurra para entrar. Quando você percebe, já está lá. Sim, tem alguém no compartimento do chuveiro, mas a cortina é bastante fosca, não dá para identificar quem é. O curioso é que parece estar sentado e de roupa, pois no meio de tantas nuanças cinzentas é possível distinguir o preto de um terno. Será? Talvez um terno?
Você avança mais um passo, sempre primeiro com a perna esquerda. E a mão canhota na frente, abrindo caminho. Ninguém fala nada, seu pânico aumenta. Sua voz está engasgada. O suor frio escorre pela sua testa. O chuveiro está ligado. O último obstáculo é a cortina. Você abre.
Quem está lá?
A fumaça cobre a nitidez dos traços, mas você consegue enxergar um homem sentado, vestindo um terno negro com camisa branca. Ele está numa cadeira de rodas. Está muito doente. Ele levanta o braço como se estivesse pedindo ajuda. Você não sabe o que fazer. Um doente, dentro do seu banheiro, com o chuveiro ligado... Como ele teria parado ali? Não seria você que está no lugar errado? Não. Esta casa é a sua. Você tem certeza. Reconhece cada palmo desse lugar. Você não ajuda o homem. Afasta-se simplesmente.
Horas depois, você volta a passear pela casa. Agora sem medo. Tudo continua preto-e-branco, mas as imagens estão mais bem definidas. Não há mais tontura. Devia ser um mal-estar passageiro. Aquele homem no banheiro, ficção dos seus olhos. Mas a sensação continua a mesma. Talvez você tenha passado um bom tempo dormindo e não se dado conta. E agora precisa seguir para o quarto. Mas antes é necessário ir até a varanda. É imprescindível. Mas por que mesmo? Você não sabe. Vai saber quando chegar lá.
Tudo excessivamente branco na área de serviço; a bicicleta continua encostada à parede. Faz mais de três anos que está parada. Qualquer dia você anuncia em um desses classificados e vende. Sempre existe alguém querendo comprar uma bicicleta. Bicicleta não. Mountain bike, como dizia aquela sua namorada que foi embora faz tempo, a Nádia. Bobagem. Não era nada disso que você queria, nem ir até a área de serviço, nem pensar na bicicleta, muito menos lembrar da Nádia. Você tinha que ir até a varanda, mas não encontrou o caminho e agora está no corredor sombrio, onde você teve calafrios há poucas horas. Será que o homem ainda está no banheiro?
Você abre a porta sem medo e confere. Tudo está em seu lugar. Nem sinal de gente. Nem fumaça. Tudo limpo. O chão está seco. Você pode ter sonhado, só isso. Mas o esquisito é que aquela horrível sensação continua. Parece haver alguém em casa além de você. Aquele homem, quem seria? Tinha um rosto familiar. De repente, a porta do quarto parece lhe dizer alguma coisa.
Seus passos agora estão mais ágeis. O cinza ganhou tons de marrom. Marrom bem escuro. E a porta do seu quarto está fechada. Mas você nunca fecha... Medo de abri-la? Por quê? É o seu quarto. Apenas o seu quarto. Seu braço está pesado, mas você consegue abrir a porta. Olha para trás e vê uma luz branca muito forte vinda da cozinha. O corredor continua bem escuro. O quarto, um breu. Você entra mesmo sem coragem. E o homem está lá. De terno preto.
Ele levanta da cadeira de rodas como se estivesse em uma cadeira comum; estica o braço para cumprimentá-lo. Você recua. Você o conhece? Não. Agora ele lhe parece um pouco menos doente, mas continua pálido. Seus olhos estão menos embaçados. Você aproveita o momento e puxa pela memória pra ver se é alguém que você conhece. Faz um esforço tremendo. Mas não lembra. Ele permaneceu imóvel, com o braço esticado. Será que vai atacá-lo? Será que está sozinho? Você sim está sozinho. Lembra-se de que cortaram o telefone dias atrás? Lembra-se de que todos os seus vizinhos se mudaram com medo da peste? Mas por que este homem está tão doente? Será que ele pegou a peste?
Finalmente ele resolve falar com você, mas você não quer escutá-lo. Tem medo. Mais uma vez. Ele vem na sua direção e você dispara a correr. Corre não se sabe quantos quilômetros, e cada vez que olha pra trás ele está lá, com o braço esticado. De repente ele alcança seu ombro e puxa você.
Desesperado, você acorda.
O despertador marca 7h15. Já é a terceira vez que ele toca.
Você passa a mão na testa para enxugar o suor. Ainda bem que a sensação esquisita desapareceu.
Sem medo nenhum você vai ao banheiro pra lavar o rosto. Hoje é segunda-feira e quem chegar atrasado à reunião será despedido, seu chefe falou isso umas seiscentas vezes pelo menos. Você abre a torneira, joga bastante água nos olhos, na boca e usa a toalha para enxugar. Olha-se no espelho e vê o doente do chuveiro. Só lhe faltam o terno preto e a camisa branca.
Por Paula Fábrio
O homem que nunca leu Hemingway
Maurício era gestor de negócios de uma multinacional.
Ana, sua mulher, uma bela publicitária que nunca chegou a criar nada além do casal de gêmeos.
Maurício nunca leu Hemingway, apesar da insistência de seu avô e do professor de literatura do colegial. Maurício dizia que não precisava de Hemingway; para o mundo dos negócios bastavam os livros dos gurus do marketing e as aulas de MBA Executivo.
Seu avô até que tentou. Comprou a obra completa, numa edição encadernada em couro e lhe presenteou no Natal. Maurício preferiu viajar para Angra.
Ana apenas cuidava do casal de gêmeos.
Maurício tornou-se diretor. Pra quê mesmo Hemingway?
Seu avô morreu. Seu pai casou-se de novo. E Ana também.
Os gêmeos cresceram e não paravam mais em casa.
Maurício chegou aos 50 e lhe foi oferecido um plano de demissão voluntária. Voluntária?
Meses depois, ainda tentando uma recolocação no mercado, Maurício reuniu a turma da faculdade, mas resolveu não contar a ninguém sobre o aneurisma. Na mesa do bar, alguém lhe sugeriu Hemingway. Maurício deu de ombros. O que lhe importava um simples escritor? Mais valia um bom cirurgião. Pensou com satisfação: “meu plano médico de primeiro mundo realizará tudo sem qualquer dor de cabeça”.
Vez ou outra, enquanto aguardava a data da cirurgia, passava na frente de uma livraria e via estampado na vitrine um livro de Hemingway. Vinham-lhe algumas lembranças do avô e do professor, mas logo uma revista de marketing, ou de outplacement, ou de network, ou de e-business lhe desviava a atenção.
Um dia, já depois da terceira cirurgia, o casal de gêmeos saqueou a conta do banco e interditou Maurício. Ana jurou que não tinha nada com isso.
No instituto onde fora confinado não havia biblioteca, mas o inspetor lhe emprestou um exemplar mofado – justamente do Hemingway. Se o avô ainda estivesse vivo, saberia que era obra do bom-velho-homem, mas como estava morto, era só uma coincidência, ou uma anedota.
O livro ficou na cabeceira da cama por muitos dias. Meses. Anos. Até que uma cegueira absoluta lhe veio abruptamente invadir os olhos. Então o companheiro de quarto perguntou:
- Deseja que eu leia Hemingway pra você?
- Agora é tarde.
- Nunca é tarde.
Silêncio.
Hemingway.
Silêncio.
Hemingway.
Silêncio.
Silêncio. Silêncio.
Por Paula Fábrio
Ana, sua mulher, uma bela publicitária que nunca chegou a criar nada além do casal de gêmeos.
Maurício nunca leu Hemingway, apesar da insistência de seu avô e do professor de literatura do colegial. Maurício dizia que não precisava de Hemingway; para o mundo dos negócios bastavam os livros dos gurus do marketing e as aulas de MBA Executivo.
Seu avô até que tentou. Comprou a obra completa, numa edição encadernada em couro e lhe presenteou no Natal. Maurício preferiu viajar para Angra.
Ana apenas cuidava do casal de gêmeos.
Maurício tornou-se diretor. Pra quê mesmo Hemingway?
Seu avô morreu. Seu pai casou-se de novo. E Ana também.
Os gêmeos cresceram e não paravam mais em casa.
Maurício chegou aos 50 e lhe foi oferecido um plano de demissão voluntária. Voluntária?
Meses depois, ainda tentando uma recolocação no mercado, Maurício reuniu a turma da faculdade, mas resolveu não contar a ninguém sobre o aneurisma. Na mesa do bar, alguém lhe sugeriu Hemingway. Maurício deu de ombros. O que lhe importava um simples escritor? Mais valia um bom cirurgião. Pensou com satisfação: “meu plano médico de primeiro mundo realizará tudo sem qualquer dor de cabeça”.
Vez ou outra, enquanto aguardava a data da cirurgia, passava na frente de uma livraria e via estampado na vitrine um livro de Hemingway. Vinham-lhe algumas lembranças do avô e do professor, mas logo uma revista de marketing, ou de outplacement, ou de network, ou de e-business lhe desviava a atenção.
Um dia, já depois da terceira cirurgia, o casal de gêmeos saqueou a conta do banco e interditou Maurício. Ana jurou que não tinha nada com isso.
No instituto onde fora confinado não havia biblioteca, mas o inspetor lhe emprestou um exemplar mofado – justamente do Hemingway. Se o avô ainda estivesse vivo, saberia que era obra do bom-velho-homem, mas como estava morto, era só uma coincidência, ou uma anedota.
O livro ficou na cabeceira da cama por muitos dias. Meses. Anos. Até que uma cegueira absoluta lhe veio abruptamente invadir os olhos. Então o companheiro de quarto perguntou:
- Deseja que eu leia Hemingway pra você?
- Agora é tarde.
- Nunca é tarde.
Silêncio.
Hemingway.
Silêncio.
Hemingway.
Silêncio.
Silêncio. Silêncio.
Por Paula Fábrio