27 Junho 2006

 

Beijo de língua travessa

Antônio estava casado com Rosa há anos. Marido satisfeito. Levava o perfume da mulher num lencinho no bolso.
Rosa era perfeita. Ordeira, suave, lavava e passava. E fazia a cama também. Tudo casadinho.
E como o amor também é negócio, posto que homem que não tem competência de mulher pra dar apoio não sobe na vida – vira vagabundo, Antônio pensava que era feliz.
Uma felicidade morna, pálida mesmo. Mas era felicidade. Pelo menos assim Antônio julgava. E seguiu pensando dessa forma por muito tempo, até que numa tarde de verão reaconteceu a paixão.
Antônio assobiava distraído uma canção no último banco do bonde que ia pra Santa Tereza, onde sossegava de morar com a esposa, quando avistou no ponto uma recordação que lhe pôs o coração na boca.
Era Helena. Ai. Helena. O tempo só lhe fizera bem. Estava mais linda que nunca.
Então ela subiu no bonde e Antônio descobriu que tudo dentro dele fervilhava, que o remédio da distância não havia secado a ferida, que ela ainda estava ali: exposta, latejante. Ofegante.
Helena não reparou no terno preto que se escondia atrás do enorme saco de pão que o passageiro do último banco carregava. Mas, assim que se sentou e o bonde recomeçou a andar, lembrou-se do tempo em que amou Antônio, do seu beijo de língua travessa, das suas mãos por debaixo da saia. De repente, seu corpo pedindo pelo dele. A saliva vindo à boca.
Tudo à toa. Certa vez, disseram-lhe que Antônio havia se casado com moça direita e tudo, tinha até filhos; então Helena abandonou as recordações e passou a prestar atenção na prosa da velha gorda ao seu lado, que folgava em contar como havia feito boas compras no comércio do centro.
Sol se pondo e o bonde parou no ponto. Antônio não desceu. Apertava o saco de pão quase migalhas.
Falava ou não com Helena? Chamava-a para um chope? um café?, um passeio de mãos dadas?, um silêncio, um toque, seus olhos se fechando, as bocas casualmente se encontrando.
Será que ela voltara para o bairro? Depois de tantos anos...
O bonde seguiu. O encontro era inevitável. Chegariam ao ponto quase final e a cidade a seus pés. Gente, carros, luzes, tudo pulsando feito Antônio.
Em casa, Rosa já tinha janta pronta. As crianças inquietas com fome. Todos à espera do pai. À espera de seu amor incondicional e eterno. Jurara amor eterno? Como poderia ter jurado se só sentia carinho e gratidão? Mas uma coisa era verdade: estava muito sozinho quando Rosa lhe sorriu pela primeira vez lá no Aterro. Helena havia lhe escapado feito areia entre os dedos. Lembrou-se de que até gritara de cima do Cristo: “Helena morreu pra mim!”. Ledo engano.
Agora, mais uma vez, suas curvas estavam lhe deixando faminto. Quem sabe se falasse com ela sobre aqueles versos amassados.
Helena olhava para fora do bonde. Nem ouvia mais o palavrório da gorda. Estava novamente absorta, lembrando-se do orgasmo que nunca mais teve. Da leveza de viver ao lado de Antônio, de tudo o que aprendera com ele, de chupar manga feito menina, de se entregar sem ouvir o mundo.
Àquela hora Rosa já devia esta preocupada. Será que ligara na repartição?
Rosa era boa. Mas não bastava. Não era nem metade da boniteza de Helena.
De repente o bonde estancou. Helena levantou-se e virou para trás. Seus olhares cruzaram-se. Helena, vermelha. Antônio, branco.
Helena baixou os olhos. Antônio levantou meio corpo e voltou a sentar. Viu Helena descer e caminhar com sensualidade – como tudo nela – até a calçada. E lá estava o outro. Moço comum. Um tipo bem diferente daquele com o qual ela sempre sonhara e que lhe contava só para entristecê-lo. Ou aborrecê-lo.
O bonde começou a descer pelo caminho de volta. Antônio ainda esticou o pescoço. O casalzinho caminhava enlaçado pela cintura. E, num último esforço de vista, Antônio percebeu que a mão do moço havia escorregado pela bunda de Helena. Ai meu Deus, aquela bunda que sempre lhe atormentara os sentidos. Ninguém comia melhor, dizia Helena. Tudo mentira. Artimanhas femininas.
Recostou-se no banco do bonde e lamentou por tudo. Sentiu-se marionete mais uma vez. Sem botar os olhos no cobrador, pegou o dinheiro e pagou a passagem.
Pensou em Rosa, nas crianças.
Outro solavanco, e o bonde novamente se aproximava de casa. Considerou se não descesse. Seria mais justo com Rosa, e com ele. Mandaria a pensão das crianças. Ficaria sozinho. Mudaria de bairro. Do Rio. Do Brasil. Viraria vagabundo?
Nada disso lhe interessava agora, uma insistente recordação de Helena permaneceu por mais alguns segundos. Ainda podia sentir seu perfume. Os bicos dos seios intumescidos. Os lábios gemendo, contorcidos. Insanidades.
O bonde parou. Não havia ninguém mais para descer, mas o motorista mesmo assim tentou, ficou a esperar por um movimento de Antônio, até que desistiu e perguntou:
- Não vai descer aqui, chefe?
Antônio despertou para o mundo.
- Não, hoje não vou descer. Pode tocar.
E o bonde deixou Santa Tereza.

Paula Fábrio
da Rato

19 Junho 2006

 

Oficina de Introdução à Dramaturgia por Paula Chagas



O curso tem como objetivo principal a aproximação do aluno
com o texto dramatúrgico

Método
O trabalho será realizado com textos dramatúrgicos em paralelo com textos jornalísticos, poemas e crônicas, com os quais os alunos estão mais familiarizados. A partir da investigação dessas linguagens é que se aproximarão, também gradativamente, do texto dramatúrgico.

Módulos
O curso divide-se em quatro módulos, desenvolvidos ao longo de quatro aulas.
Na primeira, será abordada a aproximação e a diferenciação de textos dramáticos e jornalísticos.
Na segunda, serão investigadas as aproximações e diferenciações da poesia e da dramaturgia.
Na terceira semana é a vez da prosa e, na quarta, os alunos chegarão finalmente ao estudo específico da dramaturgia.

Para o aluno entender melhor esse universo, será feita a leitura de uma peça por semana e também haverá o acompanhamento de textos teóricos.

As aulas, no entanto, são independentes. O curso pode ser realizado por inteiro ou parcialmente.

Ao final, com a realização de cenas curtas pelos alunos, poderá ocorrer uma apresentação nas dependências da Rato de Livraria, com atores convidados.

CRONOGRAMA:

Duração: Quatro aulas, com duração de três horas.
Início: 01 de julho - sábado.
Horário: Das 10:00 às 13:00.

Investimento: R$ 15,00 a aula

A cada 10 aulas realizadas na Rato, ganhe um vale-livro de R$ 10,00.

Informações e Inscrições:
Rato de Livraria
3266-4476

 

Marçal Aquino - escritor convidado do Território Nacional




“É assim que você ganha a vida, Brito? Matando gente?”
Marçal Aquino


Neste sábado, 24 de Junho, 5 da tarde, na Rato

A literatura tem um encontro marcado com você: o escritor Marçal Aquino vem à Rato para falar sobre seu processo de criação, seus personagens, suas obras, num bate-papo informal com o público e com o escritor Moacyr Godoy Moreira. Haverá também leitura de trechos das obras do autor e sessão de autógrafos.

Este evento marca a estréia de Território Nacional, uma série de encontros com escritores da literatura brasileira contemporânea.

Pocket show musical

Entrada franca
Neste sábado, 24 de Junho, às 5 da tarde.

Rato de Livraria
r. do Paraíso, 790
3266-4476

15 Junho 2006

 
Pai Goriot


Honoré de Balzac nasceu em 1799, filho de um funcionário público. Entre 1820 e 1824 escreveu algumas novelas sob vários pseudônimos, depois das quais tentou, sem sucesso, ser editor, impressor e tipógrafo. Aos 30 anos, endividado, retornou à literatura com fúria dedicada, e nos vinte anos seguintes escreveu cerca de noventa novelas e contos, aos quais deu o título abrangente de A Comédia Humana, tida como a maior obra épica de sua era. Morreu em 1850, aos 51 anos, poucos meses antes de casar-se com Evelina Hanska, condessa polonesa com quem manteve relações amorosas por dezoito anos.

Pai Goriot é considerada novela-chave na obra de Balzac, mas para compreendê-la não é necessário ter lido qualquer outro volume da Comédia.

Imensa fertilidade mental do autor, a amplitude da sua compreensão e a extensão e multiplicidade de seus interesses refletem todos os aspectos e esferas da atividade humana – homens e mulheres que sobreviveram às guerrilhas civis da Revolução Francesa e ao império de Napoleão, numa época de mudanças importantes nas condições sociais e nos valores de todos os tipos.

Balzac queria expor as forças motivadoras que dirigem homens e mulheres ao longo de suas vidas e mostrar como a estrutura social constrange tais forças enquanto é, ela própria, afetada.

Balzac era um gênio, e estava interessado em registrar o entorno das pessoas – a arquitetura de suas casas, móveis, pinturas, a comida e as roupas – não só a fim de determinar seu tempo e espaço, mas porque o entorno seria uma extensão da personalidade e uma força moldadora.

Trata-se de um romance de formação com lances de tragicomédia. A novela se passa na pensão de Madame Vauquer, em Paris, no ano de 1819. Vemos a cidade pelos olhos do ingênuo e ambicioso estudante Eugéne de Rastignac, hóspede da pensão.


Goriot, também hóspede, é um velho aposentado, outrora próspero, mas que, em virtude do excessivo amor paterno vive em privação, pois todos os recursos são usados na sustentação dos altos caprichos de suas filhas, damas da sociedade parisiense.

Os outros hóspedes são tipos humanos descritos como desprezíveis, com exceção do vilão Vautrin, personagem brilhante e a própria encarnação da força do mal, que tenta o jovem Eugéne com suas teorias rousseaunianas. Não consegue fazer de Eugéne seu discípulo, porém o influencia fortemente.

Acompanhamos o desdobramento gradual da personalidade de Eugéne em seu primeiro ano em Paris, e somos levados a cenários tão díspares quanto quartos e becos miseráveis, mansões e bailes de gala.

Pai Goriot é típica em sua maravilhosa vitalidade e perspicácia, e seu profundo tratamento de duas obsessões tão humanas e ardentes: dinheiro e amor.

por Ju Almeida

Você encontra esse livro na Rato de Livraria por R$34,60

06 Junho 2006

 

Copa do Mundo na Rato

Os melhores livros sobre futebol, com 20% de desconto!

22 contistas em campo
Ediouro
De R$ 29,90 por R$ 23,92
172 págs.
Antologia de contos organizada por Flavio Moreira da Costa. Entre os escritores, João Ubaldo Ribeiro, Rachel de Queiroz, Hilda Hilst, Rubem Fonseca e Moacyr Scliar.

Charles Miller - o pai do futebol brasileiro
Ed. Nova Alexandria
De R$ 37,90 por R$ 30,32
236 págs.
Por meio de um relato apaixonado, John Mills traça a biografia deste ícone da história do futebol no país, com fotos antigas e texto desenvolvido a partir de material colhido desde os primórdios da carreira de Charles Miller.

Ronaldo - Glória e drama no futebol globalizado
Ed. 34
De 36,00 por R$ 28,80
318 págs.
Um livro que conta a história do jogador "Fenômeno", ilustrado com fotografias. O destaque fica por conta do tom sociológico dado pelo autor, Jorge Caldeira, a respeito da globalização do futebol e dos aspectos da cultura futebolística de times e dirigentes no Brasil.

11 histórias de futebol
Ed. Nova Alexandria
De 29,00 por R$ 23,20
140 págs.
Contos de João Antonio, Daniel Piza, Domingos Pellegrini e José Roberto Torero, dentre outros nomes ilustres da literatura brasileira.

Goleiros
Alameda Casa Editorial
De R$ 48 por R$ 38,40
281 págs.
Ilustrações de Baptistão
O autor, Paulo Guilherme, jornalista esportivo, faz uma inteligente narrativa sobre os fatos que contaram a história da posição de goleiro, inclusive com fatos curiosos: por exemplo, o goleiro foi o último personagem introduzido no futebol, até a figura do juiz já havia sido criada antes. Além de fotos pxb e coloridas, o livro também traz estatísticas sobre todos os goleiros.

Melhor time do mundo
CosacNaify
De R$ 37 por R$ 29,60
141 págs.
Livro infanto-juvenil
Autor: Jorge Viveiros de Castro
Livro de contos para jovens torcedores, com ilustrações modernas de Daniel Bueno, ganhador do Prêmio HQ Mix de revelação do ano. O título inclui curiosidades sobre copas do mundo e coisas surpreendentes sobre outras culturas e países distantes.

Anjos Brancos - bastidores do Real Madrid
Relume Dumará
De R$ 44,90 por R$ 35,92
324 págs.
John Carlin, jornalista do El Pais, conta a história do Real Madrid, time que colocou na prática a ideologia do novo futebol.

Ofertas válidas até 17 de junho.
Não vale para pontos no Clube do Rato.
Entrega gratuita não é válida para estes livros.
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História da Arte

Aulas avulsas. Não tem uma sequência obrigatória.

Tema da aula deste sábado: Escola de Paris
Arte no período entre-guerras na capital francesa
sábado, dia 10 de Junho, às 15:00 horas.


Investimento: R$ 10,00
Duração: 2 horas
por Dani Nastari, experiente arte-educadora
graduada pela FAAP


Participe das oficinas da Rato:
a cada dez participações ganhe um vale-livro de R$ 10,00.

Inscrições
Rato de Livrariar.
R. do Paraíso, 790
Perto do Metrô Paraíso
3266-4476

05 Junho 2006

 

Deleite

Nunca vou me esquecer da primeira vez que Ana Leite veio à livraria. Ela saiu cantando bem baixinho, junto com o Zé Modesto ao violão, lá do fundo da casa, e, quando chegou em meio ao público do sarau, fêz-se silêncio imediatamente. O ambiente impregnou-se de uma melodia de seda, de sonho acariciado, mãe acalentando o filho.
Naquele momento, agradeci a Deus pelo presente. Após dias e noites terríveis, coisas de um passado ainda doído e irrefletido, a voz de Ana Leite sobrevinha feito brisa, doce em tarde chuvosa, num misto de paz e prazer. Deleite.
E, hoje, após um show muito brasileiro em renomada casa de espetáculos, ainda sou capaz de ouvir sua voz como da primeira vez - aconchego -, cuidando para manter viva, prendendo entre minhas mãos, essa sensação que vulgarmente costumamos chamar...Felicidade.

Parabéns mais uma vez, Ana Leite.

Paula Fábrio
Rato de Livraria.

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