31 Julho 2006
Daniel Galera
Um garoto de dez anos, um adolescente de quinze e um cirurgião plástico entediado com o casamento. Ao retratar o protagonista de Mãos de Cavalo em três fases da vida, Daniel Galera constrói uma trama delicada sobre perda e culpa na formação de uma identidade.
Com este texto de apresentação, na quarta capa, Mãos de Cavalo impressiona e marca a estréia de Galera na Cia das Letras. Sem dúvida, um grande momento de um escritor tão novo e com tanto talento.
Neste sábado, às 4 da tarde, Daniel Galera é presença confirmada no Território Nacional na Rato. Haverá também espaço para autógrafos.
Contamos com sua presença!
Mãos de Cavalo
Daniel Galera
Cia das Letras
189 págs.
R$ 34,00
Com este texto de apresentação, na quarta capa, Mãos de Cavalo impressiona e marca a estréia de Galera na Cia das Letras. Sem dúvida, um grande momento de um escritor tão novo e com tanto talento.
Neste sábado, às 4 da tarde, Daniel Galera é presença confirmada no Território Nacional na Rato. Haverá também espaço para autógrafos.
Contamos com sua presença!
Mãos de Cavalo
Daniel Galera
Cia das Letras
189 págs.
R$ 34,00
29 Julho 2006
Vem aí o Território Nacional

"Isto não é diversão. Não é para você se divertir. A pena no papel. A faca no estômago. O sexo entre as pernas. O amor no coração. Cada palavra dói tanto em mim quanto em você, ou deveria. Furo seus olhos. Abro seu estômago. Preencho seus espaços, em branco e em vermelho."
Santiago Nazarian, prosador contemporâneo, com vários livros publicados, dentre eles A morte sem nome (Ed. Planeta), de onde retiramos o trecho acima, estará no Território Nacional, na Rato de Livraria, no sábado que vem. Santiago também publicou Feriado de mim mesmo, e está preparando um novo livro a ser editado pela Nova Fronteira.
Aguarde amanhã postagem sobre o autor Daniel Galera (Cia das Letras), que também vai participar do próximo Território Nacional ao lado de Santiago e Moacyr Godoy Moreira, no dia 05, sábado, às 4 da tarde na Rato.
A morte sem nome
Santiago Nazarian
205 págs.
Ed. Planeta
R$ 29,90
Feriado de mim mesmo
Santiago Nazarian
157 págs.
Ed. Planeta
R$ 32,00
Rato de Livraria
r. do Paraíso, 790
Metrô Paraíso
f: 3266-4476
27 Julho 2006
Rato em dose dupla neste sábado
Durante o dia, no Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt, assista aos Embates literários e visite o estande da Rato com diversos livros com descontos.
Confira programação no site www.projetoidentidade.org.br
E à noite, abertura da exposição de arte contemporânea de Anike Laurita, na Rato. Cachaça, música e arte. A partir das 20 horas.
Não percam!
Confira programação no site www.projetoidentidade.org.br
E à noite, abertura da exposição de arte contemporânea de Anike Laurita, na Rato. Cachaça, música e arte. A partir das 20 horas.
Não percam!
25 Julho 2006
Cavalo perdido e outras histórias
O cavalo perdido e outras histórias é um lançamento da editora CosacNaify, que nos apresenta o escritor uruguaio Felisberto Hernández, pela primeira vez publicado em nossa língua. O livro tem prólogo de Julio Cortázar, posfácio, seleção e tradução de Davi Arrigucci Jr. Com estas informações, o leitor já tem em mãos material suficiente para comprar a obra.
Mas o blog da Rato não ficaria satisfeito apenas com teoria e crítica. Vamos pôr a mão na massa e trazer um pequeno trecho para o leitor se deliciar:
"Na sala de Celina havia muitas coisas que me provocavam o desejo de procurar segredos. Já o fato de estar só num lugar desconhecido era uma delas. Além disso, saber que tudo o que havia ali pertencia a Celina, que ela era tão severa e que reprimiria tão fortemente seus segredos, acelerava em mim uma estranha emoção, o desejo de descobrir ou violar segredos."
O trecho acima é do primeiro conto, que dá título à obra.
Este lançamento está com 20% de desconto na Rato.
De R$ 45 por R$ 36
f: 3266-4476
Mas o blog da Rato não ficaria satisfeito apenas com teoria e crítica. Vamos pôr a mão na massa e trazer um pequeno trecho para o leitor se deliciar:
"Na sala de Celina havia muitas coisas que me provocavam o desejo de procurar segredos. Já o fato de estar só num lugar desconhecido era uma delas. Além disso, saber que tudo o que havia ali pertencia a Celina, que ela era tão severa e que reprimiria tão fortemente seus segredos, acelerava em mim uma estranha emoção, o desejo de descobrir ou violar segredos."
O trecho acima é do primeiro conto, que dá título à obra.
Este lançamento está com 20% de desconto na Rato.
De R$ 45 por R$ 36
f: 3266-4476
22 Julho 2006
Culpa e transgressão
Dia desses, o cliente e amigo Élcio Roefero trouxe à Rato um belíssimo texto elaborado exclusivamente para a apresentação de sua palestra na Universidade Federal de Ouro Preto. Fiquei fascinada com a escritura do moço, então tomei o texto emprestado para postá-lo neste blog. Pra quem gosta de Clarice, é mais que um prato cheio, é um manjar dos deuses.
Culpa e transgressão: o gozo do mal ou uma aprendizagem do amor em “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector
O conto “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector (1920-1977), data, inicialmente, de 1964, quando publicado na coletânea A legião estrangeira. Posteriormente, em 1970, o texto foi fragmentado em cinco partes, apresentadas durante cinco semanas no Jornal do Brasil, época em que a autora era cronista daquele veículo. Em 1971, “Os desastres de Sofia” integra, ainda, o volume de contos Felicidade clandestina, que mistura textos inéditos aos textos já publicados em trabalhos anteriores.
Da leitura da obra de Lispector, temos a temática do mal recorrentemente revisitada por suas personagens e narradores. Assim, o sadismo que envolve parte dos seres de Lispector articula-se com a constante subjetividade de seus escritos. Na esteira de importantes estudos que agregam Literatura e Psicanálise, temos como proposta enveredar pela personagem-narradora de “Os desastres de Sofia” e investigar a conturbada e perturbadora relação construída entre ela e seu professor, numa maléfica relação edípica marcada, sobretudo, pelo sentimento de culpa e pelo comportamento transgressor da protagonista.
Num jogo especular, a personagem-narradora procura revelar o professor interiormente, uma vez que também enxerga a si mesma como um invólucro a ser decifrado. Essa identificação entre ambos – ambos desajeitados num mundo feito contra eles – conduz a menina ao incômodo desejo proibitivo de realização amorosa. Sendo assim, busca desesperadamente minimizar quaisquer qualidades do professor, visto que esse amor que sente e repudia – já que a figura do professor evoca a figura paterna – merece, em contrapartida, para a menina, o sadismo da transgressão, configurada como castigo, ao outro e a si mesma, pelo despertar do gozo proibido. Numa frustração de um desejo irrealizável, a protagonista se entrega ao prazer da vingança pela expiação, pelo desejo sádico de maltratar aquele que nela desencadeia “negros sonhos de amor”.
Em síntese, notamos, em “Os desastres de Sofia”, um percurso da construção que cada sujeito faz de si mesmo, numa busca pela satisfação de um desejo instaurado na relação com o Outro. A partir da confluência Literatura/Psicanálise apresentaremos uma leitura do conto de Lispector que, num tom memorialista e confessional, estabelece uma relação privilegiada entre a narradora-personagem e o seu professor. A análise ancora-se nas reflexões teóricas de Sigmund Freud, Jean Bellemin-Noël, Adélia Bezerra de Meneses e Yudith Rosenbaum. Com efeito, vemos em “Os desastres de Sofia” muito mais do que uma narrativa que evidencia um comportamento transgressor: a obra aponta, num lance magistral, para uma aprendizagem do amor, percebida na incompletude e carência da narradora-personagem e seu desejo de ser amada, “suportando o sacrifício de não merecer”.
Élcio é mestrando em Literatura e crítica literária na Puc/SP, bacharel em Letras pela USP, e professor de literatura nas Faculdades Integradas Teresa D’Avila – FATEA.
Culpa e transgressão: o gozo do mal ou uma aprendizagem do amor em “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector
O conto “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector (1920-1977), data, inicialmente, de 1964, quando publicado na coletânea A legião estrangeira. Posteriormente, em 1970, o texto foi fragmentado em cinco partes, apresentadas durante cinco semanas no Jornal do Brasil, época em que a autora era cronista daquele veículo. Em 1971, “Os desastres de Sofia” integra, ainda, o volume de contos Felicidade clandestina, que mistura textos inéditos aos textos já publicados em trabalhos anteriores.
Da leitura da obra de Lispector, temos a temática do mal recorrentemente revisitada por suas personagens e narradores. Assim, o sadismo que envolve parte dos seres de Lispector articula-se com a constante subjetividade de seus escritos. Na esteira de importantes estudos que agregam Literatura e Psicanálise, temos como proposta enveredar pela personagem-narradora de “Os desastres de Sofia” e investigar a conturbada e perturbadora relação construída entre ela e seu professor, numa maléfica relação edípica marcada, sobretudo, pelo sentimento de culpa e pelo comportamento transgressor da protagonista.
Num jogo especular, a personagem-narradora procura revelar o professor interiormente, uma vez que também enxerga a si mesma como um invólucro a ser decifrado. Essa identificação entre ambos – ambos desajeitados num mundo feito contra eles – conduz a menina ao incômodo desejo proibitivo de realização amorosa. Sendo assim, busca desesperadamente minimizar quaisquer qualidades do professor, visto que esse amor que sente e repudia – já que a figura do professor evoca a figura paterna – merece, em contrapartida, para a menina, o sadismo da transgressão, configurada como castigo, ao outro e a si mesma, pelo despertar do gozo proibido. Numa frustração de um desejo irrealizável, a protagonista se entrega ao prazer da vingança pela expiação, pelo desejo sádico de maltratar aquele que nela desencadeia “negros sonhos de amor”.
Em síntese, notamos, em “Os desastres de Sofia”, um percurso da construção que cada sujeito faz de si mesmo, numa busca pela satisfação de um desejo instaurado na relação com o Outro. A partir da confluência Literatura/Psicanálise apresentaremos uma leitura do conto de Lispector que, num tom memorialista e confessional, estabelece uma relação privilegiada entre a narradora-personagem e o seu professor. A análise ancora-se nas reflexões teóricas de Sigmund Freud, Jean Bellemin-Noël, Adélia Bezerra de Meneses e Yudith Rosenbaum. Com efeito, vemos em “Os desastres de Sofia” muito mais do que uma narrativa que evidencia um comportamento transgressor: a obra aponta, num lance magistral, para uma aprendizagem do amor, percebida na incompletude e carência da narradora-personagem e seu desejo de ser amada, “suportando o sacrifício de não merecer”.
Élcio é mestrando em Literatura e crítica literária na Puc/SP, bacharel em Letras pela USP, e professor de literatura nas Faculdades Integradas Teresa D’Avila – FATEA.
20 Julho 2006
Resenhas dos russos
Anna Karienina
Mais importante do que falar sobre esta edição, que é traduzida diretamente do russo, mais crucial do que falar de Tolstoi e sua obra máxima, mais essencial do que comentar sobre a encadernação de luxo, com capa dura, caixa lindamente desenhada, do cuidado editorial sempre presente nas edições da Cosac, é trazer aqui uma das aberturas mais famosas da literatura mundial, pois quem gosta e conhece livro sabe que este pequeno trecho por si só é capaz de dizer tudo: “ Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira”.
Este livro na Rato está com 20% de desconto!
Ligue e reserve o seu: 3266-4476
Poema Pedagógico
Anton Makarenko (1888-1939) redigiu uma obra única em Poema pedagógico. Se de um lado temos um romance com qualidade literária incontestável, de outro, podemos apreciar o relato de uma experiência radical, singular e bem-sucedida no campo da educação: a Colônia Gorki, na União Soviética.
Este livro, de teor ao mesmo tempo clássico e revolucionário, é de extrema importância para professores, educadores e estudiosos das ciências humanas.
Um trechinho: “ ...Aquele dia tão distante, o meu primeiro dia gorkiano, cheio de ignomínia e impotência, parece-me agora um quadrinho minúsculo no vidrinho estreito de um panorama festivo. Já está mais fácil . Até em muitos pontos da União Soviética se ataram fortes nós de um trabalho pedagógico sério, já o Partido vibra os derradeiros golpes nos últimos ninhos de uma infância infeliz e desmoralizada.”
Este livro na Rato está com 20% de desconto!
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Por Paula Fábrio
Mais importante do que falar sobre esta edição, que é traduzida diretamente do russo, mais crucial do que falar de Tolstoi e sua obra máxima, mais essencial do que comentar sobre a encadernação de luxo, com capa dura, caixa lindamente desenhada, do cuidado editorial sempre presente nas edições da Cosac, é trazer aqui uma das aberturas mais famosas da literatura mundial, pois quem gosta e conhece livro sabe que este pequeno trecho por si só é capaz de dizer tudo: “ Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira”.
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Poema Pedagógico
Anton Makarenko (1888-1939) redigiu uma obra única em Poema pedagógico. Se de um lado temos um romance com qualidade literária incontestável, de outro, podemos apreciar o relato de uma experiência radical, singular e bem-sucedida no campo da educação: a Colônia Gorki, na União Soviética.
Este livro, de teor ao mesmo tempo clássico e revolucionário, é de extrema importância para professores, educadores e estudiosos das ciências humanas.
Um trechinho: “ ...Aquele dia tão distante, o meu primeiro dia gorkiano, cheio de ignomínia e impotência, parece-me agora um quadrinho minúsculo no vidrinho estreito de um panorama festivo. Já está mais fácil . Até em muitos pontos da União Soviética se ataram fortes nós de um trabalho pedagógico sério, já o Partido vibra os derradeiros golpes nos últimos ninhos de uma infância infeliz e desmoralizada.”
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17 Julho 2006
Poste de vapor

Na empolgação do sarau leste europeu, que vai rolar neste domingo, dia 23, 5 da tarde, aí vai um trecho pra lá de saboroso do livro Poste de vapor, de Ferenc Molnár, que também escreveu Meninos da rua Paulo.
Primeiramente vale contextualizar: Molnár é de origem húngara, e nesta obra faz um lindo trabalho de metalinguagem. Extraí este trecho da parte em que ele explica de onde tirou a história de poste a vapor. Este pedacinho é o começo da descrição do personagem, e tem como em quase toda literatura do leste europeu a marca da ironia, do cômico, embora muitas vezes densa.
"Na ilha, ele tinha um único amigo de verdade: o farmacêutico. Esta frase requer duas explicações: 1) como se conheceram, e 2)como passaram a gostar um do outro.
Foi assim:
1. Na ilha, no verão, havia muitas aves canoras, mas rouxinol, apenas um: o farmacêutico. O farmacêutico antecipara em décadas o penteado da juventude fascista. Desejaria pentear os cabelos loiros até o céu, e quase conseguira, tal a altura a que havia chegado a cabeleira vaidosa da juventude..."
Poste de vapor
Ferenc Molnár
Cosac Naify
83 páginas
R$ 29,00
Entrega gratuita para o centro expandido de São Paulo.
História da Arte retorna em Setembro
Devido às férias da professora Dani Nastari, as aulas avulsas de História da Arte na Rato estarão de volta no final de setembro. Aguardem, pois os temas já foram selecionados e tem muita coisa interessante pra ver até o fim do ano.
Por Paula Fábrio
Por Paula Fábrio
15 Julho 2006
Ladeira abaixo
Lui era flamengo até morrer. Por isso muita gente gostava dele.
Por isso ele vinha ladeira abaixo, só sorrisos, cumprimentando todo mundo. Não tinha um que não dizia “Êta menino bom esse aí!”.
Passou em frente da farmácia e acenou para o balconista. Não era exatamente de remédio que precisava. Desceu mais um pouco e pediu a bênção para o padre, amigo da família desde os tempos dos seus avós.
Mais adiante, onde a ladeira amansa, Lui quase quebrou o pescoço para acompanhar o gingado da morena Zuzu, manicure responsável pelos pés e mãos da cidadezinha inteira. Mas não perdeu muito tempo não, pois por um triz não deu de cara com o poste. Então se ajeitou de novo e seguiu para a padaria da esquina. Tinha de acertar com o português, afinal era bom pagador.
Chegando lá, pagou o que devia e aproveitou para tomar a sagrada do dia. Tava estúpida! Pediu cinco pãezinhos pra turminha de casa e seguiu pela Rua São Gerônimo, onde residia com a família. Mas alguma coisa não estava bem.
Sentiu comichão de seguir pela rua do Freitas. Parou, olhou, olhou mais uma vez e ficou na dúvida.
Passou a Glorinha, que lhe deu uma piscadela, mas ele nem considerou a paquera. Estava a matutar.
Olhou novamente para a rua do Freitas. De repente, lembrou-se da mãe, da filha, da mulher e a sua vida inteira passou feito um filme pela sua cabeça. Mas não tinha nada demais. Podia ir num pulinho e voltar noutro. Ninguém iria perceber. Mas precisava prestar atenção pra não fazer besteira. Vai que alguém descobria... aí tava frito.
Já prometera diversas vezes que não faria mais nada daquilo. Deixou cair os ombros. Quase sentou na calçada de tão abatido, mas era melhor reagir porque se alguém o visse não teria mais chance de seguir pela rua do Freitas.
Seus passos foram rápidos. O coração na boca. As mãos quase a tremer. Chegou em dois minutos. Deu duas ou três pancadas, nem contou.
A porta se abriu e então surgiu um sujeito que ele nunca vira.
- Quem é você?
- Não te interessa, o que você quer? Diz logo ou se manda já.
- Da branca. Um papelote. Já acertei com o Nelsinho pro mês inteiro.
Uma gargalhada cuspiu-lhe na cara, e a resposta lhe doeu feito um tapa.
- O Nelsinho morreu ontem, cumpadi. Eu mesmo fiz o serviço. Pode passar a grana que aquele dinheiro já não vale mais não.
Lui foi metendo a mão no bolso e de tão nervoso até deixou cair o saco de pão. Enfiou muitas notas na mão do cara e saiu correndo esbaforido pela rua.
Horas depois voltou e comprou o suficiente pra botar um ponto final nessa história.
Por Paula Fábrio
Por isso ele vinha ladeira abaixo, só sorrisos, cumprimentando todo mundo. Não tinha um que não dizia “Êta menino bom esse aí!”.
Passou em frente da farmácia e acenou para o balconista. Não era exatamente de remédio que precisava. Desceu mais um pouco e pediu a bênção para o padre, amigo da família desde os tempos dos seus avós.
Mais adiante, onde a ladeira amansa, Lui quase quebrou o pescoço para acompanhar o gingado da morena Zuzu, manicure responsável pelos pés e mãos da cidadezinha inteira. Mas não perdeu muito tempo não, pois por um triz não deu de cara com o poste. Então se ajeitou de novo e seguiu para a padaria da esquina. Tinha de acertar com o português, afinal era bom pagador.
Chegando lá, pagou o que devia e aproveitou para tomar a sagrada do dia. Tava estúpida! Pediu cinco pãezinhos pra turminha de casa e seguiu pela Rua São Gerônimo, onde residia com a família. Mas alguma coisa não estava bem.
Sentiu comichão de seguir pela rua do Freitas. Parou, olhou, olhou mais uma vez e ficou na dúvida.
Passou a Glorinha, que lhe deu uma piscadela, mas ele nem considerou a paquera. Estava a matutar.
Olhou novamente para a rua do Freitas. De repente, lembrou-se da mãe, da filha, da mulher e a sua vida inteira passou feito um filme pela sua cabeça. Mas não tinha nada demais. Podia ir num pulinho e voltar noutro. Ninguém iria perceber. Mas precisava prestar atenção pra não fazer besteira. Vai que alguém descobria... aí tava frito.
Já prometera diversas vezes que não faria mais nada daquilo. Deixou cair os ombros. Quase sentou na calçada de tão abatido, mas era melhor reagir porque se alguém o visse não teria mais chance de seguir pela rua do Freitas.
Seus passos foram rápidos. O coração na boca. As mãos quase a tremer. Chegou em dois minutos. Deu duas ou três pancadas, nem contou.
A porta se abriu e então surgiu um sujeito que ele nunca vira.
- Quem é você?
- Não te interessa, o que você quer? Diz logo ou se manda já.
- Da branca. Um papelote. Já acertei com o Nelsinho pro mês inteiro.
Uma gargalhada cuspiu-lhe na cara, e a resposta lhe doeu feito um tapa.
- O Nelsinho morreu ontem, cumpadi. Eu mesmo fiz o serviço. Pode passar a grana que aquele dinheiro já não vale mais não.
Lui foi metendo a mão no bolso e de tão nervoso até deixou cair o saco de pão. Enfiou muitas notas na mão do cara e saiu correndo esbaforido pela rua.
Horas depois voltou e comprou o suficiente pra botar um ponto final nessa história.
Por Paula Fábrio
13 Julho 2006
7 motivos bem-humorados pra você sair de casa e ir à Flap
1. Desalienação faz bem ao cérebro e à saúde
2. Conhecer pessoas ligadas à cultura pode ser um programaço, e ainda pode rolar paquera
3. Fazer boas aquisições literárias enriquece não só as suas estantes como também a sua alma
4. Encontrar e conversar com escritores, professores da Usp e não pagar nada por isso
5. Guardar dinheiro para ir a Paraty numa época em que a cidade estará mais limpa, vazia e aconchegante
6. Visitar o Espaço dos Sátyros e conferir a programação das peças
7. Ver o pessoal da Rato por lá: não tem preço!
Pra quem ainda não sabe, a Flap é um evento literário que reúne mesas de embates, feira de livros, entre outras coisas. Esta já é a segunda edição do evento, que estreou em 2005. A Flap é organizada pelo pessoal do Projeto Identidade.
Flap
dias 29 e 30 de julho no Espaço dos Satyros
Pça. Roosevelt, 214
a partir das 10 da manhã
Mas lembre-se: um final de semana antes temos sarau na Rato, no domingo!
Por Paula Fábrio
2. Conhecer pessoas ligadas à cultura pode ser um programaço, e ainda pode rolar paquera
3. Fazer boas aquisições literárias enriquece não só as suas estantes como também a sua alma
4. Encontrar e conversar com escritores, professores da Usp e não pagar nada por isso
5. Guardar dinheiro para ir a Paraty numa época em que a cidade estará mais limpa, vazia e aconchegante
6. Visitar o Espaço dos Sátyros e conferir a programação das peças
7. Ver o pessoal da Rato por lá: não tem preço!
Pra quem ainda não sabe, a Flap é um evento literário que reúne mesas de embates, feira de livros, entre outras coisas. Esta já é a segunda edição do evento, que estreou em 2005. A Flap é organizada pelo pessoal do Projeto Identidade.
Flap
dias 29 e 30 de julho no Espaço dos Satyros
Pça. Roosevelt, 214
a partir das 10 da manhã
Mas lembre-se: um final de semana antes temos sarau na Rato, no domingo!
Por Paula Fábrio
11 Julho 2006
Dos lindos lábios para as páginas
"Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” canta a leveza e o peso das histórias de amor.
Em flashes, Marçal Aquino conduz a história do fotógrafo Cauby e de Lavínia, mulher exuberante “tocada por luz e sombra”.
Numa tarde luminosa, no Pará, Cauby é invadido por Lavínia, epifânica, de forma arrebatadora e definitiva, no encontro que marca o início do livro e da imaginação do leitor. Uma mulher que o autor tenta, também, desvendar ao longo da história e que nos surpreende, a todos, até os minutos finais.
Marçal nos remete à singeleza, em momentos de linguagem poética e de sentimento ingênuo, ao mesmo tempo em que escancara o desejo, destemido, como as almas daqueles homens e mulheres sob o sol no garimpo.
É nesse cenário que acompanham os nossos olhos, uma paisagem árida: casa de jagunços, de fanáticos, de loucos e de desprotegidos. Alguns, personagens de pequenos mundos desconhecidos, outros que reconhecemos em nossa imagem no espelho, refletidos.
Mergulhados nas correntezas de um amor proibido, ungido a espuma e pedra, a batizarem a alma e a carne, é na mistura do santo e do profano, do corpo e do corpo, que descobrimos, emocionados e surpresos, onde o amor habita.
Por Débora Tavares
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
Marçal Aquino
Cia das Letras
230 páginas
De R$ 39,00 por R$ 35,00
06 Julho 2006
Festa desconcertante
A Rato tem o prazer de oferecer seu espaço para a comemoração de 1 ano do site Desconcertos.
Na quinta-feira que vem, dia 13, a partir das 19 horas
entrada franca
POEMAGENS – Um ano do site DESCONCERTOS - Exibição de poemas visuais de Claudinei Vieira e dos poemas animados de Eduardo Rodrigues; participações especiais de várias escritoras e poetas.
Pra quem ainda não conhece o trabalho do Claudinei, vale e muito a pena acessar o site www.desconcertos.com.br e conferir as resenhas, os escritos; o cara sabe muito de cinema, quadrinhos, de tudo!
e amanhã, neste blog, notícias da Flap!
Por Paula Fábrio
Na quinta-feira que vem, dia 13, a partir das 19 horas
entrada franca
POEMAGENS – Um ano do site DESCONCERTOS - Exibição de poemas visuais de Claudinei Vieira e dos poemas animados de Eduardo Rodrigues; participações especiais de várias escritoras e poetas.
Pra quem ainda não conhece o trabalho do Claudinei, vale e muito a pena acessar o site www.desconcertos.com.br e conferir as resenhas, os escritos; o cara sabe muito de cinema, quadrinhos, de tudo!
e amanhã, neste blog, notícias da Flap!
Por Paula Fábrio
05 Julho 2006
Vaidade literal

Eles estavam bem ali, na minha frente, e não paravam de discutir.
Enfileirados, lado a lado, disputavam o espaço como se isso fosse a coisa mais importante do mundo.
Nas prateleiras, ouvia-se o ranger de dentes. E não estavam para brincadeira: usavam de ironia, de metáforas, do que fosse preciso, mas todos, afinal de contas, queriam provar que a sua maneira de encarar a vida era a mais verdadeira, que a sua história era a mais importante para a humanidade.
E a humanidade, o que pensava disso tudo? Com certeza, tinha outras preocupações naquele momento... Mas eles não. Discutiam sobre tudo o tempo todo.
Parei para prestar atenção no que diziam.
A discussão rolava estante abaixo, todos falavam ao mesmo tempo. Só O Alienista do Machado estava calado, ele era sempre assim, sentia-se o mais célebre, o mais requintado, aguardava o fim dos pegas para colocar sua palavra, muitas vezes era irônico com os colegas, mas quase sempre dizia coisas bem acertadas, não que eu seja fã dele, mas era certo que, depois de sua palavra, um silêncio profundo tomava conta das paredes e se juntava ao restinho de pó que a faxineira havia esquecido.
Mas enquanto a confusão estava armada, O Alienista ficava quietinho, só a observar. Um jovem na prateleira se dispunha a falar e falava quase sem ponto final de tanta energia que tinha, era o Feliz Ano Velho: “Quando o Marcelo começou minhas primeiras páginas, ele estava no começo da carreira e escrevia com amor de principiante, por isso é mais verdadeiro, é mais inocente, ele não tinha preocupações literárias... é lindo quando alguém diz ‘O Gabeira nem imagina o quão importante ele foi pra mim.’”
“Êpa! Você esqueceu que combinamos de não falar de quem não está aqui?”, interferiu o Último Mamífero do Martinelli, o mais magrinho entre todos, porém filho de autor gordinho e respeitado, um dos poucos brasileiros que conseguiu sobreviver da literatura. Bom e velho Marcos Rey, mal sabe que sua criação (ou criatura) não está agüentando o peso das Horas Nuas daquela moça linda que é a Lygia Fagundes Telles “e você, vê se chega mais pra lá com esse papo de ficção densa, profunda, isso confunde as pessoas...”
“Por quê? Você pensa que com esse texto rápido você diz muita coisa?”
“Claro que digo, digo muito mais, veja só minhas vendas como andam... um sucesso!”
Com um sotaque puramente europeu, O Assassinato no Orient Express não deixou barato: “Não me venha, caro brasileiro, com essa conversa de vendas, disso eu entendo muito bem, veja só: muita gente compra e não lê e também tem muita gente que lê e não compreende, percebe?”.
Para agitar um pouco mais a briga, um dos mais fininhos, mas cheio de pose, não se conteve: “Esperem aí! Eu sou o campeão de vendas aqui e quando se é campeão é porque muita gente entendeu nossa mensagem, o resto é papo-furado!”.
“Ah, mas você é muito petulante, só porque ensina meia dúzia de fórmulas explicando que O Sucesso não ocorre por acaso, acha que pode ter voz mais alta, e aliás, você é de outro segmento, não se meta em nossa conversa!”, sacramentou impiedosamente O Mercador de Veneza.
“Ora, meu amigo, não é todo mundo que dispõe de um Shakespeare como autor, mas cada um na sua especialidade tem suas glórias”, contemporizou A Volta ao Mundo em 80 Dias, “de que vale essa fogueira de vaidades se vamos ter o mesmo fim...”
“Do que você está falando? Trata-se de alguma previsão?”, finalmente O Alienista rompeu o silêncio.
“Não, é apenas a constatação do óbvio. Olhem lá, nossa dona está vindo com todo o aparato de limpeza: saco de lixo, flanelinha na mão, aspirador de pó, aquele espanador que me causa espirros, estejam certos, ela está vindo para dar um fim na gente.”
Um burburinho tomou conta da estante. Eu fiquei na minha, sabia que ele tinha razão, mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer, ela já havia ameaçado outras vezes, comentava com o marido que aquilo tudo estava muito sujo e velho, que ele deveria dar cabo da estante que já estava tomada pelos cupins e completava: “Se você não fizer isso, eu faço, queimo tudo!”
Enfim, ela se aproximou da estante. O burburinho aumentou, mas ela não se deu conta, afinal nunca quis escutá-los, muito menos agora. Começou a puxá-los lentamente, um a um, parecia que fazia de propósito, para torturá-los. O Alienista não perdeu a pose, nem quando caiu dentro da caixa, estava sério e preocupado, não lhe restava mais nada, talvez só uma prece para o marido da mulher chegar a tempo de impedi-la.
Infelizmente não adiantou, ela terminou o trabalho e não hesitou durante um minuto sequer. Fiquei por lá, pensando: “qualquer hora vão me tirar dessa estante e me jogar naquele criado-mudo-besta. Eu gosto mesmo é de passear no bolso do meu patrão...”
De repente, a megera voltou, e voltou na minha direção. Um pânico horroroso tomou conta do meu corpo.
Senti o calor da sua mão suada. Não dava para fazer mais nada, tudo estava perdido. Meu destino deveria ser o lixo, mas já? Eu ainda tinha tanto fogo pra queimar...
Fomos nos aproximando deles. Coitados, estavam tão murchos dentro daquela caixa... prontos para o abate. A última coisa que consegui ouvir foi do O Alienista: “Depois de criados, nós somos como filhos, somos do mundo”.
Entristeci, nem percebi que a megera estava me usando, seu dedo já havia apertado meu botão, a faísca estava feita e a chama esquentava minha cabeça, senti vontade de explodir, não pude, porque sou criatura, sou filho do mesmo pai, sou do mundo, o que me consola é que os homens também não são donos do próprio destino.
por Paula Fábrio
03 Julho 2006
Machado bebeu ali

Estou lendo Gógol pela primeira vez. O ano é 2006. A edição é de 1972. Dois anos após meu nascimento. A tradução é da Tatiana Belinky. O livro veio de um sebo, pelas mãos de uma menina talentosa, que apresentarei depois.
Capa dura, vermelha. Daquela coleção da Abril que começou apostando nas bancas e terminou correndo prateleiras de usados. O título. Almas Mortas. O estilo. Pra quem não conhece O Inspetor Geral (obra máxima de Gógol), bem diferente do que um autor ucraniano em língua russa inspira e do que o próprio título sugere. Divertido. Autêntico. Daqueles tempos em que o saber escrever era de um respeito inabalável pelo leitor. Os críticos o colocaram na escola naturalista. Mas isso só serve pra atrapalhar o leitor e rotular o autor. O que importa é que Machado bebeu ali. E bebeu bem. E muita gente deveria beber desse licor, que está merecendo uma edição belíssima, com tradução direto do russo, capa moderna - tão contemporânea como o autor.
Estou impressionada. E o mais impensável é que Gógol não chegou a terminar a obra. Jogou no fogo o que seria a segunda parte do livro, publicado graças ao que sobrou dos manuscritos que, por sua vez, se encerram, por assim dizer, sem um adeus sequer, e mesmo com esse detalhe de somenos, a obra agiganta-se a cada página, trazendo razões para provar a divindade das mãos de Gógol.
Almas Mortas fez-me lembrar de Crime e Castigo. Vontade de ler de novo. E de novo. E de me casar com o livro. Preciso urgentemente me saciar com esses russos, conhecer Krudy (húngaro), me debruçar sobre outros escritos de Dostoiévski, observar os banhos com Tchekov, ler Tolstói, Molnar e, por fim, me deleitar com o prazer de um sarau inteirinho dedicado ao leste europeu. Terra de sofrimento. De inteligências e homens raros.
A propósito, a menina talentosa que me emprestou o livro é a Ju Almeida, nossa colaboradora nos saraus.
Minhas próximas leituras, para quem quiser acompanhar:
Companheiro de viagem
Krúdy
Cosac Naify
R$ 43,00
O crocodilo
Dostoiévski
Ed. 34
R$ 29,00
Sarau leste europeu na Rato, pra quem quiser participar:
Dia 23 de julho, domingo, 5 da tarde. Tragam seus textos.
Por Paula Fábrio